UM CONTO SOBRE FUTEBOL, VIDA E CINEMA

CLARO
Eu subia a ladeira para a Vila Alzira. A bicicleta ia bem, rodando fácil, pois eu a tinha lubrificado no dia anterior. Era domingo de sol intenso, e extraordinariamente não havia futebol. O time que jogaria conosco desmarcara o encontro, por bobagem. Tinham engolido o boato de que éramos terríveis, só porque no domingo anterior havíamos aplicado 11 a 2 num time de Bangu. Não souberam que estava chovendo, e partidas em campo assim terminam ou com um placar dilatado ou exíguo: zero a zero, um a um... Então recolheram o rabo e preferiram ficar em casa dormindo. Por outro lado foi bom, pois Robson não ia poder jogar: estava de serviço no quartel e só chegaria em casa pela manhã. Soldado raso, recruta zero, um mané. Mas era excelente lateral-direito. Eu o descobrira jogando num flamenguinho muito ruim, do qual ele era o destaque. Fazia de tudo: marcava, atacava, batia pênalti, falta, escanteio. Só faltava agir no gol. Na ocasião, seu time perdeu de oito, mas ele marcou três vezes. Então o convidei para jogar conosco. A nossa lateral-direita era um enigma e precisava dele: por ali tomávamos muitos gols, e pouco conseguia no ataque o nosso lateral. Robson vinha como uma luva. Naquela época, na vanguarda, era quase ala, função ordinária hoje. Por isso fazia muitos gols. E também os levava.
Eu jamais poderia imaginar que ele acabaria namorando minha prima e dormindo muitos sábados em meu quarto, na segunda cama de solteiro, que fora de meu irmão, metido numa empresa mineira estabelecida na Bolívia. Eu já havia memorizado a cena. Estava na praça com alguma garota ou entre amigos, arrotando façanhas no futebol, quando Delma chegava acompanhada de Robson. Me chamavam da esquina, com acenos de mão, e lá ia eu com minha companheira, ou sozinho, encontrá-los. Delma dizia:
"Ele pode dormir lá?"
"Claro!"
E ficávamos os quatro na praça o resto da noite, beijando. Ou íamos a um bar próximo, acionávamos a vitrola e bebíamos alguma coisa.
Mais tarde, já na cama, ligávamos a tevê. Meu pai roncava no quarto ao lado, enquanto minha mãe prosseguia no andar de baixo, sobre suas costuras, o que fazia sempre que decidia ir à missa no domingo à tarde.
Nunca era um bom filme, mas pelo menos eram filmes. Hoje, de madrugada, as emissoras só investem em programas de auditório ou utilidade pública. Uma baboseira, tremenda porcaria. De tempos em tempos, dávamos sorte e achávamos um Orson Welles. Raro, sem dúvida, mas possível de acontecer. E aconteceu, algumas vezes: A dama de Xangai, A marca da maldade, Soberba. Na manhã seguinte havia jogo, mesmo assim íamos dormir às três da manhã, embriagados por Rita Hayworth...
Parei diante da residência de Robson. O portão estava fechado. Na varanda da casa, muito recuada terreno adentro, avistei a gaiola com os dois periquitos, um verde e um azul, sempre se beijando. Bati palmas e chamei. Depois de um momento de silêncio, renovei as palmas e o chamado, mais alto agora. Como as janelas se conservassem fechadas, supus que não houvesse ninguém, apesar da gaiola na varanda. Robson morava com a mãe, só os dois, pois ela era viúva e a irmã dele se casara havia dois anos com um limpador de ferramentas da Petrobrás e se mudara para Campos.
Passado um tempo, durante o qual fiquei ali, encostado ao muro, avistei Robson vindo pela rua, longe ainda, vestido em seu uniforme verde do exército. Ele acenou para mim, e imediatamente me pus em movimento sobre a bicicleta. Logo o alcancei.
Ele parecia cansado, com olheiras profundas e os ombros caídos. A mochila em suas costas pesava mais que de hábito. Mas ainda assim ele sorriu e disse que estava tudo bem, quando o cumprimentei. Só desejava dormir um pouco. Perguntei por sua mãe, e ele respondeu que, àquela hora, provavelmente estaria na missa.
"Claro! Nem pensei nisso. Como minha mãe..."
E imediatamente mudei de assunto:
"E Delma?"
"Hoje de noite vamos dançar. Por que você não vem, com Iva?"
Falei que não podia, que já tínhamos compromisso, íamos almoçar na casa de sua irmã e depois pegaríamos um cinema. Nada relevante, um filminho tolo, com um ator da moda e uma atriz de rosto bonito. Além do mais, Robson sabia que eu não gostava de dançar, e que Iva, por seu lado, embora gostasse, não fazia muita questão. Não era, portanto, um programa que nos atraísse.
Entramos na casa. E fui me sentando, e ele ligando o som. Uma música pesada irrompeu, fazendo vibrar o metal das janelas. Robson sumiu num dos quartos, mas logo retornou, só de calção. Disse que estava acabado, exausto como uma besta depois de um dia inteiro puxando carroça, e precisava dormir. Vi neste comentário um convite para que eu expusesse, sem rodeios, o motivo de minha visita.
"Me empreste uma grana", falei. "Iva me chamou para irmos à casa de sua irmã, depois ao cinema, mas estou liso..."
Robson voltou a desaparecer no quarto. Retornou com quatro cédulas de dez na mão. Achava que era uma quantia suficiente, e era. Me levantei, peguei o dinheiro e lhe agradeci o favor. Pensava em lhe pagar logo, naquela semana mesmo.
Ele me acompanhou até o portão, e nos prometemos, na sexta-feira próxima, levar as garotas a algum lugar.
"De preferência pra cama", brincou.
"Claro!", concordei.
Eu estava na esquina quando ouvi os tiros. Dois inicialmente e, com um intervalo de uns dez segundos, mais um. Voltei correndo. Todavia, antes que alcançasse a casa, já duas pessoas, dois vizinhos apavorados, haviam pulado o muro e chegavam à varanda. Mãe e filho mortos, ela com dois buracos no peito, e ele com um rombo na cabeça. Às vezes, como minha mãe lá em casa, a mãe de Robson aos domingos deixava para ir à missa à tardinha. Parece que isso o irritou.
Na gaiola, os periquitos trocavam de poleiro a todo instante, assustados com o vaivém de pessoas.
Mayrant Gallo. Publicado no Correio da Bahia, em 04/06/2006.
Cena do filme Boleiros (1998), de Ugo Georgetti.
Mayrant:
desde o início do conto, pressenti que um desfecho trágico estava por acontecer. Belo petardo, meu caro. Uma pena que o site do Correio da Bahia não dê o destaque que você tanto merece...
Abraço.