A PRIMEIRA BOLA
Era emborrachada. Mas quase do tamanho oficial e de gomos brancos e pretos pintada. Presente de Natal. Saiu do quarto quicando a bola no piso, tóim! tóim! A mãe proibiu-o de jogar dentro de casa. Foi pra rua e de lá foi expulso pelos intrépidos carros. Ficou na calçada, pra lá e pra cá, a driblar imaginados adversários. Uma tristeza. Mas a bola era só dele e não a dividiria com outros facilmente. Chegou a tarde e ele continuava agarrado à bola. Na praça do cais, exibiu-a como se fosse sua primeira namorada. Não a beijou publicamente por timidez, mas vontade teve. Anoitecia e os rapazes pulavam do cais, o rio pesadamente cheio. De repente, um puxão e a bola virava brinquedo nos pés da rapaziada. Ele pediu a bola de volta, gritou esganiçado e acabou chorando. Mas a bola não voltava: rebolava-se faceira entre os rapazes, tóim! tóim! Antes de escurecer completamente, a bola foi chutada com ímpeto rio adentro. Deu seu último tóim ao tocar as águas barrentas e velozes do rio. Engasgado pelo choro, do alto do cais, horrorizado e impotente, assistiu ao sumiço da bola na escuridão, rio abaixo. No retorno ao lar, levou uma surra por ter perdido a bola, seu caro presente de Natal.Carlos Barbosa
Nenhum menino esquece sua primeira bola. Guarda até a velhice o cheiro
que ela continha; O tipo de "tóim!" que ela fazia ao quicar em diferentes tipos de solo...
A primeira bola se equivale, resguardadas as proporções devidas, à uma primeira namorada. Geralmente nos apaixonamos pelas duas; geralmente, ambas passam pelas nossas vidas e deixam aquele vazio, ao qual cedo ou tarde retornamos...
Belo texto, "A primeira bola". Independente se foi Mayrant ou Carlos o autor. Se bem que, a presença do rio me faça acreditar ter sido um trabalho barbosiano...
Abraço.
Tom
Pois é, Tom, faltou a assinatura, que agora cravo: Carlos Barbosa.
O miniconto pode ser lido, também, no meu blog "miniconto.zip.net".
Abraços