Até que a Copa nos Separe - Estados Unidos 94

Chego em casa, extenuado. Abro a garagem, guardo o carro. Reparo com pupilas senis o movimento dos vizinhos, excitados pelo clima. Minha esposa me aguarda. Há anos ela me espera. Quando não na porta, no quarto; na sala onde assiste tv ou, quando muito insinuante, me espera na cama. Tomo banho, escuto suas queixas diuturnas e janto uma comida anunciada há uma semana. Vou assistir ao telejornal de sempre e me distraio com os sobrenomes dos repórteres, sem prestar atenção às notícias. Abrita, Kampff, Barbeiro, Bocardi, Padrão, Bomtempo, Bast, Apple, Boechat. Glória, ao meu lado, cheira ao tempero da janta. Os Estados Unidos isso, os Estados Unidos aquilo e volto a Noventa e Quatro.
Recordo a estréia. Moeda nova e mentira velha. Eu torcia contra o já-previsto e a burocracia contra seleções inexpressivas como Rússia, Camarões e Suécia duas vezes. Hagi e Stoichkov tentaram, mas não deixaram tanta saudade assim. Dos goleiros, raros os iluminados. Taffarel foi um dos eleitos.
No dia 4 de Julho, renascemos. A cotovelada de Leonardo nos retirou da letargia. O tom sofrido de melodrama nos reavivou e a nossa cama rangeu como não fazia há copas. Atuei como um Salenko: cinco vezes eu. Antologia. Inspirada, ela copiou a frase suada de Bebeto dita a Romário. Eu te amo... Vivíamos dias bons, considerando o que já havíamos passado. Ela fez uma comida especial, enfeitando nosso quarto para a decisiva contra a Holanda. Final antecipada.
A culpa foi minha. Amava as outras, as incertas, as imprevisíveis, as inseguras, as imprestáveis, as que me traíam, as brutas, as aproveitadoras, as que me maltratavam. Mas casei com Glória, a enfadonha. Baggio ainda tentou me dar uma força: terminou isolando. Não tinha o que comemorar, mas coloquei a camisa e fui para as ruas, abraçado a uma Glória postiça e invejada. Esfuziante, beijei seu rosto, de leve. Ela me olhou como quem diz “agora estamos muito bem”.
A efedrina começava a fazer efeito. Precisávamos ganhar fôlego.
Tom Correia
"olha que isso aqui tá muito bom / isso aqui tá bom demais / olha, quem tá fora quer entrar / quem tá dentro não sai ". Começo a imaginar a ponta de faca em 1998. Foi no meio da tarde, disso lembro. Em vez de Maracanã, uma país inteiro em silêncio e na expectativa de Ronaldo sobreviver. Como foi, afinal, seo Tom? Abr. Carlos